A VERDADE:

Do julgamento em tribunal de duas versões opostas de um qualquer facto resultam no mínimo quatro verdades diferentes: as duas correspondentes a cada uma das partes em conflito, a que resulta da sentença doutamente proferida, e ainda aquela que se torna inatingível, aquela à qual nunca se chegará... a que fica 'ad aeternum' no segredo dos deuses.
2020 Monteiro deQueiroz


Senhora da SerraAlto do Marão

"Saí de Braga às 4.02 da manhã, com destino ao alto do Marão, para presenciar a festa de Nossa Senhora da Serra, que ocorre sempre no segundo domingo de Julho depois do S. Pedro. Meus compadres do Porto, o João e a Ana, já me tinham falado desta romaria há uns anos, mas eu ainda não tivera a oportunidade de lá ir.

Aconteceu que no 23º aniversário da Casa de Trás-os-Montes estivemos a apresentar o Grande Cancioneiro do Douro, de Altino Cardoso, obra onde se refere esta romaria como ocasião para a demonstração de música e dança tradicionais, concretamente para ouvir as chulas de Gestaçô ou das terras limítrofes, agora tocadas com violino.

Fui eu e a Tininha, minha esposa. Chegámos lá às 5.12, quase sempre sem trânsito até à subida para o alto da Serra, mas depois com a grande surpresa de ver que já lá estava um mar de gente, um mar de tendas e de tendeiros. Estacionámos e fomos à capelinha, agasalhados, por ali acima, até às antenas. Estava ainda fechada. A resposta sobre o horário da missa foi de que ela seria às nove ou nove e meia, que agora o padre é novo e levanta-se mais tarde, com toda a ironia do frio e da noite neste aparte. Meus compadres tinham assistido à missa, em tempos, às seis da manhã e às sete estavam a comer frango no churrasco e a ver os grupos a actuar. As mudanças, como se vê, estão em curso. Fomos ao carro buscar uma manta, das duas que leváramos e toca a ir arranjar lugar para ver nascer o sol.

E vimos. E aquela subida rápida para a crista do horizonte mal aflorou na linha do mesmo fez soltar aplausos e festejos. O culto solar ali na plenitude e nós a assistirmos, a participarmos nele. Lembrei o meu professor Moisés Espírito Santo e a sua interpretação de vel para o sol, sendo este o Velho, e fiquei com as ideias arrumadas sobre este mistério em que me envolvia directamente. Já o malhão velho e a chula velha ganhavam outra interpretação.

E visto o nascimento, foi vê-lo crescer, experimentando empírica e gostosamente essa teoria secular de pensar que é o sol que vai girando sobre nós, que foi tudo quanto vimos o sol fazer, ali em poucos minutos de esplendor.

De novo até à zona da capela para encontrar um lugar de espera, sem vento, aconchegado, que permitisse dormir um pouco. Que era o que víamos fazer, posto que acordados e despertos e sem frio fossem muitos e novos, mas também os vimos como justos a ressonar debaixo do céu.

Assim passou o tempo, num crescer de gente à volta. Na capela, a Senhora tem tratamento de imagem e esta foi outra surpresa: então não é que lá fui encontrar a pajela da Senhora com o poema de António Correia de Oliveira «Louvada seja na terra» escrito recentemente no verso?, esse poema que musiquei para «Os Sinos da Sé», a que acrescentei até mais letra, e que faz parte do nosso disco «Queremos dar-Te graças». Que pena tenho de não saber postar aqui e agora essa música.

O encantamento do altar, na sua simplicidade e «tosca» decoração, deixa ao visitante e ao devoto uma experiência singular de acolhimento: ali se deixa a esmola, ali se depositam os cravos e ali se pagam os cravos ou as flores e logo se deixam ali, ali se conversa e se reza, ali se vai e chega com a postura de dever. Ali se anda de joelhos e a pé à volta da capela, pelo corredor, que se varre a espaços para evitar as areias, ali foi o grupo de bombos «Os Borgas» de Ovil, Queimada, Baião, ali foram os dois grupos folclóricos, o de Carneiro, Amarante, e o de Gestaçô, Baião. A missa foi campal. O padre era novo, o coro esforçou-se, as pessoas ajuntaram-se, o rito funcionou. Já o Sol queimava, já o corpo pedia o farnel e nós, de ouvidos cheios de chulas, verdegares, viras e malhões, fados e valsas, as mesmas quadras à Senhora em todas as peças, corpos suados e trajes de compostura variada, viemos dali felizes, com a ideia de termos ido a ganhar a plena consagração."

Por José Hermínio da Costa Machado, [12.jul.2009]
https://mineirodejales.blogspot.com/2009/07/senhora-da-serra-alto-do-marao.html [14.abr.2020]

Photo: https://www.geocaching.com/geocache/GCKQG3_antenas-do-marao [14.abr.2020]


(c) 2010-2020 Monteiro deQueiroz TEXTOS e TEXTOS